Em qualquer mercado cultural e artístico do mundo existe uma divisão de segmentos e públicos-alvo. Uma dessas maiores divisões é a que separa o mercado alternativo/independente/underground do mercado principal/maintream. Seja na música, no cinema ou nos quadrinhos o mercado independente sempre apresenta formas de linguagem, experimentações e técnicas diferentes das apresentadas no mercado principal. Diversas bandas ou diretores que hoje desfrutam de um reconhecimento no mercado começaram suas carreiras de maneira independente. O mainstream sempre acaba absorvendo o que de mais interessante acontece no mercado alternativo, popularizando e elevando aquele produto a outro nível de qualidade.
Imagine agora esse fato no competitivo cenário das grandes editoras de quadrinhos norte-americanas, lar dos maiores super-heróis do planeta. A Marvel Comics e a DC travam uma antiga guerra pela preferência dos leitores. As duas gigantes do ramo são duas potencias mundiais, seus personagens são publicados em uma centena de idiomas pelo mundo a fora. Bem, se essas duas são referencias em quadrinhos, imagine então o mercado independente norte-americano?
Isso mesmo leitor, existe por lá um mercado fortíssimo de quadrinhos independentes, totalmente organizados. Uma infinidade de títulos tem despontado, desde os anos 70, elevando seus criadores a referencias no gênero.
Para tentar entender um pouco sobre a força que os quadrinhos independentes têm no mercado norte-americano, é preciso saber que essa força provém e é fortalecida por uma antiga guerra entre as grandes editoras e os criadores e artistas.
Lá, desde o crescimento da indústria nos anos 40, os artistas das grandes editoras são tratados como free-lancers. Isso quer dizer, em suma, que todo o direito autoral sobre seu trabalho de criação com os personagens é por direito da editora. Foi assim que essas corporações editoriais passaram a deter os direitos sobre uma infinidade de personagens como Batman, Superman, Homem-Aranha, X-men, Vingadores etc...
Um dos exemplos mais famosos dessa guerra é o da família de Jerry Siegel, um dos criadores do Superman, o personagem mais famoso da história dos quadrinhos. Eles só começaram a receber o que lhes é de direito pela criação em 2005, depois de uma sentença judicial.
Essa guerra acabou fortalecendo o nicho independente, que por sua vez, provou ser possível fazer sucesso e alcançar fama e fortuna dessa maneira, como é o caso de Kevin Eastman, Peter Laird (As Tartarugas Ninja), Stan Sakai (Usagi Yojimbo), Dave Sim (Cerebus),Wendy e Richard Pini (ElfQuest), entre outros.
Aqui vai a história de alguns desses criadores e personagens que decidiram enfrentar as gigantes editorias.
CEREBUS O AARDVARK de DAVE SIM

Cerebus pode ser considerada a serie independente de maior sucesso no mercado norte-americano. Escrita e ilustrada pelo canadense Dave Sim, Cerebus pode se vangloriar por ser uma das séries, em língua inglesa, mais longas (com começo, meio e fim) a ser produzida pelo mesmo time criativo, isto é, apenas Dave Sim. Foram mais de 300 edições, 6.000 páginas contando a história do porco-da-terra Cerberus, em um mundo rodeado por magia ao melhor estilo de uma paródia de Conan o Bárbaro. A série foi publicada mensalmente de 1977 a 2004, colocando o criador como um dos pioneiros dos quadrinhos independentes, inspirando uma centena de escritores e desenhistas depois dele.
A série se desenvolveu ao longo de sua publicação junto com seu criador, chegando a um patamar de sofisticação artística. Dave se tornou conhecido por utilizar toda a grandeza da narrativa sequencial dos quadrinhos de formas antes inimagináveis. Livre das ordens das mega-corporações do gênero, o artista usou todo seu esforço para extrapolar todas as limitações impostas pelas grandes editoras, tornando a revista Cerebus um dos expoentes do gênero independente.
Dave também se tornou conhecido por ser um dos principais articulistas em prol dos direitos autorais dos quadrinhos. A serie, apesar do sucesso,continua ainda hoje inédita no mercado nacional.
Na continuação do post você conhecerá as histórias por trás da criação de outros relevantes quadrinhos independentes. Até lá.
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